Durante nossas viagens sempre nos deparamos com personagens curiosos e interessantes, tanto que levamos sua história como mais uma boa recordação do lugar. Em Los Roques, das muitas pessoas que conheci, duas vale contar as histórias. Mesmo sabendo que agora é um país que não é aconselhável visitar, seja pela falta de abastecimento de itens básicos ou pela segurança, este paraíso sempre estará na minha lista de lugares que quero voltar um dia.

O pescador 

O primeiro é o Zé Mané (se pronuncia Ché Mane), um simpático pescador que de tanto as pessoas pedirem para ele cozinhar o pescado do dia, resolveu abrir um restaurante. A iniciativa deu tão certo que cresceu e se profissionalizou. Um pouco por ser o único restaurante de Madriskí, na verdade fica em Cayo Pirata (uma ilhota grudada na praia, basta atravessar um trecho de areia banhado por água dos dois lados. Mas muito graças ao seu saboroso tempero “secredo”, grande diferencial dos demais peixes sempre simplesmente grelhados nos demais restaurantes de praia. A apresentação do prato, cuidado pouco adorado em Los Roques, é de encher os olhos.

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A cerveja bem gelada, coisa rara por lá, vem acompanhada de um ‘picadito’, um aperitivo, nada menos de ceviche de Boluto e outro caracole – é isso mesmo, um caracol. Um “bichinho” daquela linda concha onde se pode ouvir o barulho do mar, onipresente em Los Roques, e outra menor, como um espiral chapado, que tem uma consistência parecida com um polvo. Só digo uma coisa: pare com o preconceito contra a comida e experimente, é uma delícia. O prato principal é um peixe grelhado, que acompanha tostados = platano (banana, achatada e frita), uma saladinha cole slaw (repolho, maionese, cebola), e arroz com açafrão. O sabor era incrível, melhor comida daqui, fora da Posada Caracol, que conto em outro post.

Sobremesinha, um pêssego em calda, mas sinceramente, nem precisava. Só o bom papo e a cerveja gelada já estavam acima das expectativas. Não dá para deixar de ir. Dizem que a sua lagosta é a melhor (estávamos fora de época). Deve ser, chama Rancho de la Langosta.

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A Sereia

Bom, agora o segundo personagem interessante que conhecemos foi Iru Balic. Terceira melhor mergulhadora em apneia do mundo, Iru tem apenas 26 anos – destes 11 praticando o esporte, hoje, profissão.

Mesmo patrocinada por marcas como Nestea (Nestlé), contou que enfrenta dificuldades para se manter como esportista. Uma delas é comprar equipamentos, somente a sua nadadora (os pés de pato), que precisa para ganhar profundidade e rapidez, custa quase 2 mil euros. Problemas (como a falta de incentivo) que atletas em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento enfrentam.

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Quando a conheci, mergulhava em apneia até 69 metros de profundidade, uma marca quase inalcançável para muitos mergulhadores. Para ter uma ideia, precisa ter nível avançado, ser um bom mergulhador e ainda ter cursos de ar enriquecido, como Nitrox ou Trimix, com misturas especiais para aguentar a profundidade. Imagina fazer isto no peito, ou melhor, no pulmão. É admirável. No dia que mergulhou com a gente foi a “só 55 metros”, pois estava com dor de ouvido. Eu, que estava fazendo a especialização em mergulho profundo, fui a espantosos 42 metros – suficiente para ficar desorientada com a narcose (excesso de nitrogênio no sangue). Ou seja, sem comentários.

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No nosso segundo mergulho, Iru nos acompanhou a uma profundidade de 18 a 23 metros. Estávamos na barreira de coral de Los Roques (a quarta maior do mundo) no ponto de Boca de Cote, definitivamente o melhor lugar para se mergulhar lá. E no meio aos cardumes, corais coloridos e outros seres do mar, surge Iru com uma desenvoltura impressionante, atingindo o fundo,  onde estávamos, e voltando à superfície. A visão dela subindo e descendo, passeando pelos corais, era digna de uma linda sereia. Sua roupa verde de borracha e sua nadadeira dupla, cabelos longos soltos, só contribuíram ainda mais para a imagem da figura mitológica. Muitas vezes deixei os lindos peixes e visão de um verdadeiro aquário para focar observando ela “brincando”, como disse que fazia a esta profundidade, enquanto posava para fotos do fotógrafo Francisco, famosos por seus belos livros de fotografia, os melhores da região.

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Depois de muitos mergulhos (já passei dos 50), nem tanto para os mergulhadores de plantão, já posso dizer que além de tubarões, tartaruga, moreias e raias, vi um dos mais lendários na Barreira de Corais de Los Roques: a sereia. É não é conversa de pescador.
* Todas as fotos da Iru Balic foram extraídas de seu Facebook

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