El Celler de Can Roca é uma celebração à arte de comer bem

Existe um universo místico e de glamour em cima da gastronomia atual. Guia Michelin, rankings, melhor do País, do mundo, chefs celebridades, alguns inclusive muito mais famosos que a sua própria comida. Mas também ainda existe o lado da paixão pelo que é natural, orgânico e saboroso. O El Celler de Can Roca é uma experiência para se levar para a vida. O símbolo R, de restaurante, significa um conceito de serviço impecável, de comida indescritível e de fazer as pessoas mais confortáveis e felizes possíveis. E digo, fazem.

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A casa possui três estrelas no tão aclamado Michelin, tendo conquistado a sua terceira em 2009. O restaurante ficou dois anos no segundo lugar e atingiu o topo do ranking dos 50 melhores do mundo da inglesa Restaurant Magazine, ano passado, e agora voltou ao segundo (o primeiro é o Nomma, na Dinamarca).

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E nem é preciso saber de tudo isso. É impossível não lembrar, durante as mais de quatro horas de serviço, do filme Festa de Babete, em que diversas emoções vão surgindo à medida que cada convidado degusta um prato. São três irmãos que buscam o que se tem melhor na Gastronomia, sim, com G maiúsculo, para propor uma volta ao mundo, sem sair da mesa.

el-celer-04Essa foi a minha vivência no El Celler de Can Roca, em Girona, na Espanha, que muda a cada visita, já que o menu é sazonal:

O restaurante possui um ambiente elegante e tranquilo, em forma de um triângulo, com árvores em um canteiro central. Cada irmão tem uma tarefa: Joan é o chef; Josep, o sommelier que assina a harmonização; e Jordi é o pâtissier. Em uma moderna casa em Girona, a pouco mais de uma hora de Barcelona, só realiza um serviço por refeição (almoço ou jantar) e, quando você chega lá, entende o motivo: serve dois menus, um reduzido e o festival, que, com as entradas, superam 20 pratos, ainda harmonizados com mais de dez vinhos diferentes.

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A recomendação é pedir o completo e não perder uma só criação desses irmãos geniais. Ao chegar, há sempre um dos irmãos Roca (fui recebida pelo simpático Jordi), a postos para a visita da ampla cozinha.

el-celer-06O menu muda a cada temporada. Mas a experiência que descrevo ultrapassa a sazonalidade. Para começar, é oferecida uma deliciosa Cava feita especialmente para a casa. E entãoí você é convidado a dar uma volta ao mundo.

Um globo negro é colocado à sua frente e, ao abrir uma fita, pequenas degustações convidam a essa viagem: cada item tem uma explosão de sabor: húmus (Líbano), ceviche (Peru), wasabi (Japão), entre outros, todos desconstruídos de sua forma, com um sabor facilmente reconhecido, com execução dificilmente inigualável.

el-celer-07Em seguida, chega à mesa um bonsai com olivas caramelizadas, penduradas, prontas para serem colhidas. Para acompanhar, coquetel em formato de bombom, que explode na boca.

Depois dos aperitivos, segue o couvert com pratos desconstruídos e que impressionam no sabor. Destaque para o bombom de trufa de Verona, servido em uma pedra, cortada ao meio, que remonta ao habitat natural da trufa.

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E o banquete segue. Na verdade, começa. A harmonização é um capítulo à parte. Josep tem orgulho da sua adega e de seu trabalho. Sua fama de o melhor sommelier da Espanha é fácil de conferir. Os vinhos escolhidos não apenas combinam, formam uma simbiose de complementação inacreditável, que parece uma coisa só. Inexplicável.

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As entradas variaram da “ensalada verde”, que em nada lembra as saladas tradicionais e traz diferentes texturas e sabores – inclusive sorbet de azeite de oliva –, ao Yin & Yang, símbolo do equilíbrio na filosofia chinesa, um espetáculo para os olhos, com ostras imersas em um caldo frio (yin) e outro quente (yang).

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Entre os pratos, o Toda la Gamba, que, como o próprio nome diz, traz todas as partes do camarão: sua cabeça e patas crocantes, e seu corpo quase cru. É acompanhado de “rochas” de tinta e de uma farofa. Ainda no mar, linguado com uma releitura do belle meunière; bacalhau; e o salmenete (peixe) acompanhado de trio de nhoque (o de laranja definitivamente não comerei outro igual). Os peixes são cozidos a mais de 50ºC por alguns minutos, o que confere uma maciez e firmeza na medida.

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E a diversão segue.

Se é que é possível ter um eleito (ainda não tenho certeza), os crocantes quadrados de lombo de porco ao molho do mesmo vinho impressionam. Há também uma adaptação de Steak Tartar, com sorbet de mostarda e um cordeiro “fumegante”, com uma encenação ao servir que exala um aroma para complementar o sabor do prato.

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Tudo lá é elaborado para promover uma experiência única, com cenas, etapas e uma apresentação – impecável – dos pratos. Acabou? Não, a desafiadora combinação de fígado de pomba com laranja surpreende pelo equilíbrio e leveza. Para finalizar, chega Jordi, com suas sobremesas, como o cromatismo laranja, quadradinhos de gelatinas em formato de tetris, sotobosque de chocolate, com a sobriedade do cardápio de outono, e o postre láctico, com sorvete de leite de cabra, que dá saudades só de lembrar.

O vinho harmonizado é uma continuidade. Contrastes de sabores, temperaturas e texturas estavam presentes em todos os pratos.

Se o cardápio muda a cada temporada, a experiência não.

el-celer-012Os superlativos, os elogios, justificam a descrição dessa experiência incrível. Muitos podem até achar exagero. Mas vale provar antes para depois contar se há realmente algum exagero.

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El Celler de Can Roca 

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